Artigo do Mês

Não a carregue com você!

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qua, 15/03/2017

Era a hora do rush numa manhã de inverno cinzenta, triste, chuvosa e fria, em Bournemouth. Eu dirigia com tráfego pesado nos dois sentidos, mas havia uma pequena brecha entre o meu carro e o da frente. Eu notei que um carro azul avançava lentamente pela pista do lado para cortar todo o tráfego e entrar na minha pista.

Mas eu assumi (sempre um processo perigoso – assumir – mas isso é motivo para outro artigo!) que o motorista ia esperar por um espaço mais seguro. Ele, não. O carro azul continuou vindo pelo lado da estrada lenta e progressivamente. E eu também, assumindo de novo que ele estava usando o truque comum de bloquear o tráfego do seu lado enquanto esperava por uma brecha na outra pista.

No último minuto, eu percebi que ele não tinha a menor intenção de parar e esperar por uma brecha. A estrada estava muito escorregadia e me dei conta que se pisasse no freio, eu quase certamente acertaria pelo menos o carro azul e seria abalroado pelo furgão que seguia bem de perto atrás de mim.

Acelerando, eu consegui entrar com o meu carro no espaço apertado. Quando passei, no espaço entre o meu carro e o azul, provavelmente, passaria apenas uma folha de papel. Naquele momento eu olhei rapidamente para o outro motorista – que na realidade estava olhando para o outro lado!

Consequências

A reação começou imediatamente. A adrenalina percorrendo todo o sistema. O coração batendo no peito. Agitação. Desejei que não tivesse deixado de fumar (como se um cigarro fosse realmente ajudar). E o ímpeto de raiva... "O imbecil! Nem mesmo olhou para onde estava indo!" Essa não é bem a transcrição literal do meu pensamento verdadeiro.

Quem está controlando meu dia?

Aí eu percebi o que estava acontecendo. Eu estava permitindo que a ação de outro ser humano, um estranho – ainda que negligente e imprudente, influenciasse os meus pensamentos e as minhas emoções! E percebi que, a não ser que eu fizesse algo logo, o meu dia estaria arruinado e perseguido pela memória desse estranho junto com a usual e interminável série de pensamentos sobre o que poderia ter acontecido!

A menos que eu agisse – fui por um tempo para o ‘controle manual’ – ele, ou melhor, a memória dele, iria realmente controlar o meu humor. Eu não seria responsável por mim.

(1) Agindo – a decisão

Assim, o meu primeiro passo era decidir se era mais importante estar no comando do meu dia ou me enfurecer - de verdade ou mentalmente - ou ruminar sobre o que poderia ter ocorrido.

Nessa hora, o carro dele já estava bem atrás de mim no tráfego congestionado, e então rapidamente decidi não manter nenhuma relação com ele. Nem raiva nem interesse. Eu escolhi ignorá-lo – para mim ele não existia mais em relação ao que tinha acontecido alguns minutos atrás. Assim, nenhuma raiva, nenhuma agitação, nenhum gesto estranho com os dedos, nenhum olhar furioso no espelho retrovisor, nenhum vínculo.

Inútil! Ele, provavelmente, ficou mais do que convencido de que eu, e não ele, estava errado. (É raro que o ataque de raiva de alguém tenha o efeito de provocar que a outra pessoa levante as mãos e diga: "Sabe, você está certo. Eu estava completamente errado. Obrigado por ser tão amável em chamar a minha atenção para isso! Vou corrigir a minha conduta imediatamente.”)

Também me lembrei das muitas coisas estúpidas que já tinha feito na vida, como motorista de carro e antes, de motocicleta, e das quais escapei. Sem dúvida, aquele motorista tinha sido negligente, perigoso, errado, etc. Mas eu também não era conhecido por fazer julgamentos errôneos?

(2) Agindo – respirando

Eu sabia que enquanto o corpo estivesse inundado de adrenalina, seria difícil tentar mudar o meu pensamento ou a minha atitude. É por isso que para lidar com estados de ansiedade, ‘o primeiro passo é físico’. Eu precisava, modo de dizer, fechar essa torneira de adrenalina.

Então usei as técnicas de respiração: uns poucos minutos de respiração modificada de Buteyko, respirando normalmente por cerca de trinta segundos entre uma série Buteyko (em inglês) e a próxima. Como sempre, isso funcionou como um prazer e as sensações da adrenalina começaram a diminuir.

(Especialmente quando auxiliado por métodos de respiração, as sensações da adrenalina normalmente desaparecem dentro de 10 a 15 minutos depois do choque ou do pânico – contanto que não se alimente o sistema com mais adrenalina devido a pensamentos assustadores ou raivosos.)

Apenas para manter os benefícios, eu usei um pouco de Respiração Tranquila por mais 10 minutos – enquanto usava os métodos a seguir.

(3) Agindo – a motivação

Para lidar com o ímpeto de dizer poucas e boas ao outro motorista, eu optei pela paz de espírito. Agora eu precisava encerrar com determinação, me motivando a colocar o evento recém acontecido para trás. Então, mentalmente, visualizei como seria o restante do meu dia se eu não deixasse esse assunto para trás. Aí funcionou. Agora eu estava motivado para manter a minha decisão de deixar as coisas como estavam e prosseguir com o meu dia – ao invés de permitir que ele se tornasse ‘um daqueles dias’.

(4) Agindo – imaginação & emoções

Até aqui o meu 'pensamento positivo' tinha sido na forma de diálogo interno – ou de subvocalizações. Sem dúvida você deve ter notado, a partir da sua própria experiência, que o diálogo interno positivo não tem muito efeito sobre as imagens mentais, exceto quando usado por um longo período. Eu então usei uma técnica de PNL chamada de Swish

É um excelente método para desligar instantaneamente os pensamentos indesejados. Esta técnica, Swish, está aqui no Golfinho – portanto imprima-o e pratique – uma grande técnica. E deu resultado – em dois minutos, enquanto estava na fila do próximo semáforo.

Em menos de dez minutos as emoções ligadas ao episódio estavam dissolvidas – física, mental e emocionalmente.

Devemos reagir desse modo?

Enquanto eu continuava a minha viagem, fiquei imaginando se chegaria o dia em que eu poderia ser capaz de ter tranquilamente eventos desse tipo em minha caminhada, talvez com apenas uma reação física momentânea, sem a onda de medo e de raiva.

E me perguntava se eu gostaria de ser assim. Não vejo nada de errado em experimentar medo, raiva ou pânico. Para mim são sentimentos perfeitamente normais para serem experimentados. A questão importante é como controlá-los, se assim o quisermos. Ou ficar com eles. Ou alimentá-los com a nossa imaginação e pensamento. Ou permitir que eles nos esmaguem?

Há uma metáfora sobre dois jovens monges que viajavam de casa para o templo através de uma grande floresta. Eles chegaram a um córrego largo e com forte correnteza.

Ali havia uma bonita mulher incapaz de atravessar. Um monge se ofereceu para ajudá-la e a carregou nos seus ombros. Ele a colocou na margem oposta, ela lhe agradeceu e os dois monges continuaram no seu caminho.

O outro monge ficou calado durante todo o caminho até pouco antes de entrarem no templo, quando ele finalmente explodiu: "Eu não posso acreditar que você fez isso. Tocou em uma mulher. E o seu voto de permanecer casto e puro!" O primeiro monge deteve-se, olhou para o indignado companheiro e disse: “Meu irmão, eu a deixei na margem do rio há meia hora – mas você ainda a está carregando..."

Este artigo Don't carry it with you! encontra-se no site Pegasus NLP Training.

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